Um breve comentário sobre a empregabilidade de profissionais de tecnologia

Olá!

Uma das grandes dúvidas que assola a maioria dos profissionais de tecnologia que eu conheço é a famigerada: será que estou atualizado? Como que está minha empregabilidade? O que eu estou fazendo está sendo relevante? Conseguirei mudar de emprego caso eu queira?

No texto de hoje, gostaria de comentar um pouco sobre isso.

Disclaimer: se você está começando na tecnologia, o texto que está mais aderente ao seu momento de carreira talvez seja esse aqui.

Vou começar com a seguinte afirmação: empregabilidade é, ao mesmo tempo, mais fácil do que parece e mais difícil do que deveria ser.

Mas antes vale o seguinte disclaimer: obviamente que irei comentar com o viés de uma pessoa desenvolvedora, portanto, não sei se os assuntos discutidos aqui fazem sentido fora da área de tecnologia.

Durante a minha carreira, já entrevistei várias vezes um tipo de perfil muito específico que mesmo tentando ajudar a pessoa a responder algumas perguntas técnicas, o sentimento que a pessoa passava para mim era que ela parou no tempo: o famigerado sênior de uma empresa só.

Um profissional com bastante experiência (geralmente com 8+ anos de experiência), que, tendo passado por várias áreas dentro da empresa que trabalha ou mesmo ficando na mesma área que entrou e foi promovido algumas vezes, no momento em que deseja mudar de empresa, tem muita dificuldade em se recolocar.

Quando perguntado sobre práticas atuais (como DevOps, Kubernetes ou alguma linguagem fora do padrão enterprise de orientação a objetos), simplesmente não consegue responder. Além desse ponto, perguntas básicas para um profissional técnico como: O que é SOLID ou DDD, diferenças entre duas estruturas de dados similares e afins, acabavam por simplesmente não fornecer respostas satisfatórias. Aqui entram dois problemas específicos para quem almeja uma cadeira de Sênior: não basta somente saber fazer, tem que saber explicar para formar novas pessoas. Além disso, experiência não é somente entender de processos ou sistemas de uma empresa só, e sim, ter a competência para atuar em diferentes desafios do mercado, de forma flexível.

Em outras palavras, um Sênior de fato é Sênior em qualquer empresa, não somente em uma. Cuidado com essa armadilha do ego de ter bastante conhecimento de um lugar só e achar que conhece o mundo.

Um outro ponto que vale mencionar é que a necessidade de segurança financeira acaba sendo o grande ponto fraco na carreira dessas pessoas, gerando a seguinte auto sabotagem: o medo de ficar sem trabalho faz você ficar sem trabalho de fato, pois, em prol da estabilidade financeira, prestígio ou algo parecido, você para de pensar em aprender algo mais abrangente e foca somente no básico e confortável para desempenhar seu trabalho atual.

É aqui que entra um ponto que alguns profissionais com um tempo considerável trabalhando em uma mesma empresa tem dificuldade de entender porque eles não foram promovidos e a empresa trouxe alguém do mercado para uma vaga que eles tinham certeza que era deles: muitas vezes, a própria cultura da empresa gerou alguns dos problemas que a empresa está tentando resolver trazendo alguém de fora. Trabalhando muito tempo na mesma função e fazendo as coisas do mesmo jeito, você acha mesmo que você passa a mensagem que irá mudar a forma de trabalho da empresa? Um jeito novo de se fazer as coisas advém de uma mente que traz uma outra perspectiva para aquele contexto.

Ou seja, estando pronto para o mercado você consegue se manter competitivo para a sua empresa atual e outras. Focando somente na sua, você estará competitivo somente na sua. O que invariavelmente é um tiro no pé: pois nenhum contrato de trabalho é eterno.

E uma coisa é verdade, o mercado não para de andar pra frente (e nem vai esperar você).

A longo prazo, o que acaba acontecendo, é que o valor de um profissional para o mercado decai a longo do tempo, tendo como resultado algo como a imagem abaixo, que eu chamo de entropia da empregabilidade:

Quando ocorre uma diminuição do tempo do ciclo e ocorre uma oxigenação das experiências (em ciclo de 2–3 anos), ocorre uma percepção para os recrutadores de um profissional relativamente estável, com várias experiências diferentes e uma certa profundidade. É um critério puramente arbitrário aqui, mas acredito que seja um bom equilíbrio.

Portanto, a mensagem que eu gostaria de passar aqui é: se a quantidade de coisas que você está aprendendo está quase próximo de zero, está na hora de mudar. O ciclo de 2–3 anos que eu comentei foi vindo de uma percepção como profissional de tecnologia, dado o ciclo rápido de mudanças e inovações da área. Portanto, mais importante do que prazos arbitrários é a seguinte questão: o quanto estou aprendendo onde estou?

Para dar um exemplo pessoal: já trabalhei em um local que fiquei 3 anos e meio como Junior (apesar de ter recebido aumentos de salários, não fui promovido) e não estava aprendendo muitas coisas. Quando tentei sair, eu suei frio para conseguir fazer um teste de como fazer uma simples API REST. Só passei na entrevista com o gestor porque por coincidência eu consegui responder uma pergunta técnica muito específica que eu tinha aprendido como responder lendo um livro técnico específico próximo a data da entrevista, o que foi visto como um bom sinal pelo gestor da vaga. De certa forma, foi sorte.

Agora, um exemplo hipotético: se você está na mesma empresa desde 2016, por exemplo, te faço a seguinte pergunta: você sabe kubernetes? Essa ferramenta já se tornou padrão de mercado nos últimos anos e surgiu por volta de 2014, tendo ganhado popularidade pelos idos de 2017 e 2018, a ponto de não ser mais considerada inovação por estudos de tendências atuais:

Esse gráfico é baseado na lei de difusão da inovação. Ou seja, orquestração de containers (que tem como principal ferramenta Kubernetes) já está na etapa Late Majority de adoção (essa etapa contempla cerca 16% do público total impactado pela inovação).

Aqui fica uma dica: procure esse tipo de conteúdo de vez em quando, pode ser esse da InfoQ ou até mesmo o Tech Radar. Caso você não tenha a mínima ideia do que sejam os assunto discutidos até o segmento de Early Majority ou do Experimente/Adote do Tech Radar, por exemplo, pode ser um sinal que você está, de fato, precisando se atualizar.

Você não precisa dominar tudo profundamente para ser considerada uma pessoa competitiva (aqui entra a parte da empregabilidade ser mais fácil do que parece que eu comentei no começo do texto), porém, requer um pouco de esforço da sua parte. E é aqui que gostaria de elaborar o argumento de que empregabilidade é mais difícil do que deveria ser.

Eu nunca vi um profissional conseguir se manter 100% atualizado somente trabalhando, sem estudar fora do horário do trabalho, seja lendo alguns livros técnicos, assistindo vídeos ou indo em conferências. É simplesmente mito alguma posição que isso seja possível.

Vamos a um exemplo exagerado para colocar o argumento em perspectiva: Por mais que você trabalhe com pesquisa e desenvolvimento em uma Big Tech— que, ao menos em teoria, parece o santo graal em termos de se manter atualizado — ainda sim, haverão algumas práticas que o mercado irá adotar que quem faz trabalho experimental não irá adotar, como por ex: por mais que você pesquise algoritmos novos ou até mesmo desenvolva ferramental experimental, pode ser que lhe falte o uso prático de Agilidade ou DevOps (o que por coincidência, é o que eu vejo entrevistando pessoas vindo de um background acadêmico, que costuma ser bastante experimental e de vanguarda em muitos pontos).

A ideia aqui é: ser contratado é ser comparado. Portanto, sempre tenha em mente a seguinte pergunta: o quanto eu tenho a oferecer comparado com perfis semelhantes de experiência e salário? Com uma auto crítica justa aqui, você pode conseguir resultados melhores. Valorize-se, porém, aceite o que você não tem competência para fazer (ainda).

E por fim, gostaria de frisar um último ponto: tenha um plano. Ajuda muito para o mercado saber onde você quer chegar. Se você quer chegar a CTO, deixe isso claro. Se você quer estabilizar em Sênior, deixe isso claro. E construa o seu currículo em cima desse plano. Acredito que você possa ter resultados melhores trabalhando dessa forma.

A transparência ajuda muito para ambos os lados!

Por mais que pareça que você irá perder oportunidades de curto prazo, no final, você não precisa de 10 propostas. Nem sequer de 2. Você precisa somente da certa para você naquele momento.

Boa sorte e até!

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Escritor-Desenvolvedor

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