Precisamos falar sobre processos seletivos

Adriano Croco
6 min readJul 11, 2022

Olá!

Hoje eu gostaria de comentar um pouco sobre o processo de recrutamento de profissionais de tecnologia e alguns problemas que enxergo na forma que esse assunto é conduzido.

Se você não está familiarizado(a) com processos dessa natureza, acho que vale uma breve contextualização primeiro.

O intuito de um processo de recrutamento estruturado (assim como outros fluxos administrativos de uma maneira geral) é gerenciamento de risco. Ou seja, existe um conjunto de funcionários da empresa que são pagos para defender os interesse dela, através do trabalho exercido por eles. Partindo dessa premissa, um recrutador é uma espécie de representante dos interesses da empresa na hora que tenta contratar um candidato do mercado. Porém, é um processo que cai facilmente no problema do quem vigia os vigilantes? Ou em termos mais formais, no problema do principal agente.

Esse é o primeiro problema que um processo desse tem: Será que as pessoas que estão envolvidas no processo de recrutamento são as pessoais mais adequadas para tal, dado potenciais conflitos de interesses, por exemplo?

Além disso, todo candidato (na visão da empresa), não possui um voto de confiança da mesma logo de cara, dado o impacto negativo que ele poderá causar. Portanto, um recrutador é uma pessoa que é paga para — através do trabalho exercido — mitigar o risco daquela nova pessoa prejudicar a empresa de alguma forma.

Para resumir, o processo de recrutamento de um profissional de tecnologia e se dá basicamente da seguinte forma:

Geralmente, as empresas terceirizam boa parte dessas etapas (geralmente até o passo 5), ficando a cargo do gestor da vaga o passo 6 e do time de recursos humanos interno as demais ações necessárias.

Apesar de na visão do candidato parecer menos etapas, na visão da empresa ocorrem vários processos antes de efetuarem uma proposta para alguém.

Geralmente processos administrativos são bem pensados e a correta execução dos mesmos diminuem os riscos de algo dar errado. O problema começam com os fatores humanos mesmo.

E é sobre esses fatores que eu gostaria de falar.

Ao meu ver, o processo começa a desandar por causa de crenças das partes envolvidas, seja do recrutador, do gestor da vaga ou da direção da empresa.

Vamos à alguns exemplos de comportamentos advindos de algumas crenças:

Recrutador perguntando sobre quem vai ficar com os filhos ou se uma mulher pretende engravidar. No fundo, é uma visão machista do papel da mulher no mercado de trabalho mesmo. Afinal, se fosse uma preocupação real com as crianças cobrariam isso dos homens também, não é mesmo?

Gestor de vaga dizendo que prefere contratar homem porque mulheres saem de licença maternidade (o que é mais caro para empresa, na visão dele). O problema aqui não é a mulher engravidar ou não, o problema é a assimetria que é gerada no mercado porque não é esperado do homem que ele se ausente por paternidade, por exemplo. Caso o homem também tivesse uma licença paternidade de um período semelhante ao que se aplica hoje para mulheres, seria uma forma de reduzir essa assimetria. Ideia na qual eu concordo, inclusive.

Recrutador proferindo que desenvolvedor já ganha muito bem, então não tem que reclamar de fazer horas extras todos os dias, das condições de trabalho péssimas ou da qualidade do equipamento fornecido. Aqui o problema pode ser um abuso advindo de ressentimento de quem profere (no nível individual) ou um efeito colateral de uma cultura organizacional que enxerga a tecnologia como um centro de custo ao invés de uma área estratégica. Eu já abordei aqui os diferentes tipos de formas que uma empresa enxerga sua área de tecnologia se você quiser entender melhor.

E inúmeros outros vieses advindo das limitações de visão de quem contrata, como por exemplo: o gestor da vaga só sabe Java, então para ele, só serve quem tem background em Java. Nesse cenário, outros candidatos tão bons ou até melhores são desconsiderados sem nem serem ouvidos devido a esse critério arbitrário qualquer. O ser humano de uma maneira geral é uma máquina de vieses cognitivos, portanto, ao invés de negá-los, a abordagem mais eficiente para quem contrata deve ser aceitá-los, entendê-los e combatê-los, ao meu ver.

Eu não vou entrar nesse assunto hoje senão eu não acabo o texto ahahahaha

Existe um outro fator que eu gostaria de citar que é a terceirização do recrutamento. Esse processo é muito difícil dar certo sem conflitos pelo seguinte motivo: A falta de ownership de ambas as partes envolvidas.

Para quem contrata, é fácil esperar que o candidato se dedique ao máximo (afinal, há dinheiro envolvido), ou, até mesmo esperar do recrutador o melhor candidato possível dado que é uma prestação de serviço. Isso é uma lógica errônea pelos seguintes motivos: Empresas são iguais a filhos, só são especiais na visão dos pais. Na visão das outras pessoas, são apenas mais uma mesmo.

A relutância em aceitar que o candidato (e a consultoria contratada) não enxerga aquela empresa como especial é o que faz algumas empresas soarem tão arrogantes nos seus posicionamentos.

Para ilustrar tal arrogância, acredito que aqui valha mencionar a seguinte anedota (os nomes foram trocados para preservar a identidade dos envolvidos):

Recrutador: João, você passou na vaga. Mas, terá que trabalhar a noite e aos finais de semana.

João: Isso não estava na descrição da vaga. Obrigado, mas eu não quero trabalhar a noite.

Recrutador: Mas aqui é a empresa XPTO, você não tem escolha.

João: E eu sou o João.

(João vira as costas e vai embora).

João foi um amigo do meu pai.

Ele era um eletricista muito competente que estava participando de uma vaga para uma montadora multinacional. E João não se submeteu, porque sabia do seu valor como profissional e o quanto competente era.

E é aqui que entra o ponto central do texto: Você não pode obrigar ninguém a se importar com a sua empresa. E antes da empresa exigir que alguém se importe com o negócio, ela precisa convencer o candidato a se importar com ela, para começar. Geralmente, as pessoas não se importam, e sim, se submetem as empresas por inúmeros motivos.

Portanto, você como empresa, experimente falar a verdade para os candidatos e consultorias antes e deixar eles decidirem se querem trabalhar com vocês. Experimente dizer: não conseguimos cobrir o seu salário ao invés de prometer um aumento que nunca virá e enrolar o candidato, por exemplo. Experimente ser transparente com a consultoria de como é o clima interno, ao invés de obrigar o recrutador a mentir senão ele não fecha a vaga.

E se você não sabe, aquele recrutador(a) freelancer ganha por vaga fechada. Se ele(a) não apresenta candidatos, ele(a) não tem salário no fim do mês.

Nenhum negócio resiste ao teste do tempo se foi construído em cima de mentiras.

Aliás, para quem costuma fazer isso, eu pergunto: Alguma vez você continuou gostando ou respeitando alguém que não cumpriu uma promessa e mentiu na sua cara? Provavelmente não. Se empresas são basicamente pessoas, porque o mercado continua tratando os envolvidos de uma forma que não seja partindo da premissa que são pessoas adultas responsáveis pelas próprias escolhas? Relacionado a isso, o texto sobre dívida humana pode te ajudar a entender melhor essas dinâmicas de promessas não cumpridas nas empresas.

Você que está lendo pode estar pensando:

Não concordo, empresas geram empregos! Elas podem fazer o que quiserem em seus processos internos, pois são instituições privadas.

Eu também acho, porém, assim como tecnologia, empresas também são criações da inteligência humana. Em última instância, elas devem servir ao seres humanos ao invés de controlá-los. Além disso, toda empresa tem uma função social além de simplesmente gerar dinheiro, não é mesmo?

O ser humano veio antes e restará após todas as empresas sumirem, isso se nossa espécie sobreviver ao aquecimento global e não causar sua própria autodestruição antes.

O motivo desse texto existir é tentar gerar uma reflexão para que não continuemos a repetir os erros de sempre e depois assistirmos calados os envolvidos (recruiter e candidato) reclamando um do outro nas redes sociais, sendo que o verdadeiro problema que precisa ser combatido está na forma em que o processo de recrutamento é conduzido.

Ao menos, tentemos ser melhores. =)

Até!

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