O texto para quem odeia o que faz
Olá!
O texto de hoje será um pouco mais reflexivo que o de costume. Devido a isso, não irei publicar no Linkedin como sempre faço.
Ao longo da minha vida, eu nunca pensei muito no que queria fazer. De uma maneira geral, considerando de onde eu vim, eu nunca sequer pensei em ter o que chamamos de carreira.
A própria noção de continuidade já me é algo estranho. Como eu estudei em escola pública, a rotatividade de professores e ausência de recursos sempre me gerou a seguinte percepção: eu não sei o que vai acontecer amanhã, portanto, viva o hoje e veja no que dá.
Pensar em olimpíadas de matemática, bolsas de estudo em outros locais e demais oportunidades de desenvolvimento sempre me soaram impossíveis e fora da minha realidade.
Quando eu comecei a trabalhar, foi a mesma coisa. Quando meu pai me disse: filho, eu não consigo te ajudar, então, você vai ter que lutar pelo que quer. A única coisa que eu conseguia pensar era: o que diabos eu vou fazer? Só sei que terei de trabalhar, mas, no que?
Pelo menos, ele nunca interviu no que eu quis fazer. Imagino que seja deveras sufocante ter a pressão dos pais dizendo que você terá que seguir a tradição da família, seja ser policial, médico ou até mesmo, administrar a empresa da família ou algo parecido.
Ao longo do tempo, eu cheguei a fazer cursos de nutrição e hotelaria, trabalhei em hospital e em call-center, atuei como garçom e office-boy. Em última instância, gostava de uma coisa ou outra, mas odiava outras. Até aí, nada de novo sob o sol.
Quando eu escolhi fazer a faculdade que fiz, a única coisa que eu pensei foi de cunho prático: eu gosto de computadores e administração, a faculdade é gratuita e perto da minha casa, logo, vamos lá, é o que tem para hoje.
Eu me pergunto hoje em dia se o grosso da população brasileira não toma decisões similares todos os dias, simplesmente porque não tem opção. Esse é o problema da pobreza: ela nos tira até o direito de ter sonhos e escolhas.
Olhando em perspectiva, eu nunca sequer pensei em fazer faculdade, para começar. Ainda hoje isso me soa como algo meio surreal.
O duro é quando terminei a graduação, ouvi de um diretor de um grande banco o seguinte questionamento em uma entrevista: porque fez faculdade tão tarde? Como se fosse uma questão de escolha somente.
Ao longo do tempo, fui percebendo que eu tinha uma certa facilidade com conceitos relacionados a computação e administração. Somado a isso, percebi uma certa desenvoltura natural, apontada em mim por pessoas próximas, que desde pequeno eu não tinha problemas em me comunicar. Avançando alguns anos no tempo e cá estou hoje, como gestor de pessoas dentro da área da computação. No frigir dos ovos, é isso que faço todos os dias: comunicação com pessoas sobre computadores.
Conforme os anos passavam, eu acabei desenvolvendo uma espécie de lema pessoal: sobreviva com o que tem para hoje e ao menos foque no que faz bem.
Com o tempo, fui percebendo que essas decisões forçadas não ficam confinadas à vida de quem as toma — elas transbordam para o trabalho e para as pessoas ao redor. Felizmente, eu acredito que dei sorte na escolha da minha profissão.
Se você hoje está estudando um ofício que não gosta ou já tem uma carreira que te entristece todos os dias, eu gostaria que você refletisse sobre o seguinte:
- Você gostaria de ser atendido por um(a) médico(a) que odeia o que faz? Daqueles que claramente tem lacunas em sua formação? Você deixaria sua saúde ou de algum familiar na mão dele(a)?
- Imagine o mesmo exemplo para um(a) advogado(a). Você deixaria na mão dessa pessoa um processo super crítico e delicado, que tem potencial absurdo de destruir sua vida?
Pense em inúmeras profissões, de piloto de avião, passando por personal trainers, fisioterapeutas, mecânicos até mesmo o caixa de supermercado.
Ao interagir com pessoas que não odeiam o que fazem, a diferença é nítida.
O caminho já vai ser difícil de qualquer jeito, então, por que não perseguir o que você faz bem e deixar a profissão que você tanto odeia para trás? Todas as pessoas ao seu redor (incluindo seus clientes e pacientes, por exemplo), se beneficiariam. Não estou dizendo para abandonar tudo, longe disso, mas nem todas as transições precisam ser abruptas. Mas, antes tarde do que mais tarde.
Existe uma reflexão que eu me faço sempre dentro da computação: nunca antes na história da profissão foi tão fácil estudar conceitos avançados de engenharia de software, bem como ter conteúdo relacionado a boas práticas de forma acessível. Em última instância, você até consegue o contato de grandes nomes e consegue enviar um e-mail para essas pessoas em busca de orientação. Ter uma resposta é outra história, mas, ao menos existe um caminho até essas pessoas por causa da internet.
Então, se software é relativamente fácil de fazer e acessível (ainda mais com IA), eu me pergunto: porque existe tanto software merda hoje em dia? Vide o software da sua TV que demora minutos para carregar ou basicamente tudo feito em Electron.
Software mal-feito me incomoda justamente porque eu amo o que faço e sei que dá para ser diferente.
O mesmo se aplica a outras profissões: se você tem opções (leia-se: você veio de uma família que não é pobre), porque você se sujeita a exercer uma profissão que você odeia e fazer um trabalho porco até o fim da vida? Sério que essa é a vida que você quer?
Se você é ou foi pobre, eu não julgo. Sobreviva, lembra? Continue lutando, me mande uma mensagem se você acha que se beneficiaria conversando com alguém da área, inclusive.
O curioso é que quem não teve opções costuma fazer um trabalho melhor do que quem teve. Eis a ironia da coisa toda.
Confesso que o caminho do autoconhecimento não é tão simples. Mas, depois que você dá uma aprofundada (seja fazendo terapia com um profissional qualificado que não odeia a profissão, obviamente), você verá que não tem muito segredo: no final, você sempre sabe quem é de verdade. Com o tempo, você só acaba se esquecendo disso.
Ao saber disso, o que te impede de perseguir o que de fato quer fazer até o fim dos seus dias?
Se você precisar de técnicas, busque por Ikigai, Verdadeira Vontade, Raison d’être, Vontade de Sentido e Eudaimonia. Todos são conceitos que em última instância, falam da mesma coisa.
Repetindo a fala daqueles que vieram antes de mim para quem virá depois de mim, vos digo:
Esto Quod Es.
Espero que o texto seja útil para você de alguma forma.
Até!
