As limitações da empatia

Olá!

O zeitgeist da gestão de pessoas e dos conselhos de carreira se resume basicamente às seguintes ideias hoje em dia: trabalhe enquanto eles dormem, tenha empatia, seja digital, exiba o sucesso no "Linkedinho" e gratidão.

Nesse texto eu gostaria somente de me atentar à questão da empatia e tentar explicar porque o uso de algumas técnicas sem questionamentos mais profundos não faz tão bem quanto se acha que faz.

Logo de cara já adianto que o processo mental que culminou nesse texto levou anos e tentarei expor aqui um resumo das ideias nas quais fui exposto até chegar a conclusão do título desse artigo.

Para nivelarmos o entendimento sobre o assunto, vamos à algumas definições para o termo empatia, segundo o dicionário:

1. faculdade de compreender emocionalmente um objeto (um quadro, p.ex.).

2. capacidade de projetar a personalidade de alguém num objeto, de forma que este pareça como que impregnado dela.

3. capacidade de se identificar com outra pessoa, de sentir o que ela sente, de querer o que ela quer, de apreender do modo como ela apreende etc.

Ou seja, pelas minhas palavras, a empatia nada mais é que "absorver" o que o outro é (ou parece ser, segundo nossas próprias percepções). Ou seja, no fundo, é sobre você, não sobre o outro. E é ai que reside o problema.

Para começar, gostaria de comentar sobre essa entrevista— de 2017 — que coloca em evidência o trabalho de um psicólogo canadense chamado Paul Bloom que é professor em Yale. Ele argumenta que a empatia não é uma boa ferramenta na tomada de decisões, seja para pessoas, nações ou organizações, por vários motivos, mas, eu gostaria de me atentar a somente um deles.

Aqui eu cito o autor com o porquê da empatia não ser uma guia confiável para nossas ações morais:

Por uma só razão: das capacidades e faculdades humanas, ela é a mais tendenciosa. A empatia — entendida como a capacidade de compartilhar dos sentimentos alheios e, acima de tudo, de sentir a dor alheia — é um grande desastre moral. O exercício da empatia nos conduz às piores decisões e a um mundo pior.

As mais recentes pesquisas da neurociência e a experiência do cotidiano revelam que é relativamente fácil se colocar no lugar daqueles que você ama, de alguém próximo, atraente, amigável ou que se parece com você. Mas a empatia por quem lhe é distante se dá com bem menos naturalidade.

Além disso, a empatia não pode ser quantificada e naturalmente expandida. Ela funciona como um holofote, isto é, só podemos centrá-la em um indivíduo ou num grupo pequeno. Vários estudos mostram que, estranhamente, a empatia nos impele a dar mais importância ao que acontece com uma pessoa do que [ao que ocorre] com muitas.

Por fim, a empatia pode ser usada para induzir pessoas a endossar posições políticas das mais cruéis.

A ideia proposta pelo autor mencionado não é simplesmente abandonar a tentativa de se colocar no lugar das outras pessoas, mas sim, se utilizar da compaixão direcionada para tentar ajudá-las. Ou seja, somente sentir a dor do outro não ajuda muito e requer menos esforço do que de fato agir em cima disso:

essa escala veio de uma consultoria de UX, mas é aplicável para qualquer coisa

Gostaria de reforçar os seguintes pontos: se a empatia nos faz focar em somente uma pessoa ao invés de grupos e também não nos ajuda a entender quem de fato tem cultura e valores fundamentais diferentes dos nossos, na prática, ela é incompleta como ferramenta de entendimento do outro.

E agora? Como podemos fazer melhor?

Eu fiquei com esse questionamento na cabeça por alguns anos até que recentemente me deparei com uma resposta que achei satisfatória.

Como gestor de pessoas, eu gosto de estudar bastante sobre o assunto para tentar ser um profissional melhor. Ao ouvir esse podcast, me deparei com várias alterações cognitivas geradas pelo simples fato de atuar em cargos de liderança. Não vou reproduzir todos os argumentos aqui para fins de brevidade, mas, em resumo é: seu cérebro muda quando se atua como líder, o que com o tempo gera alterações comportamentais significativas, por mais que você não perceba. É algo como: você acha que alguém que atua com gestão nos dias úteis não levará isso para as interações fora do trabalho? A resposta é obviamente que sim.

Por incrível que pareça, não foi essa a descoberta mais significativa que tive ao consumir esse conteúdo. A mais importante foi descobrir o conceito de alteridade, que pretendo explorar nos próximos parágrafos.

Para elaborar meu argumento, vamos à algumas definições do termo:

natureza ou condição do que é outro, do que é distinto.

situação, estado ou qualidade que se constitui através de relações de contraste, distinção, diferença [Relegada ao plano de realidade não essencial pela metafísica antiga, a alteridade adquire centralidade e relevância ontológica na filosofia moderna ( hegelianismo ) e esp. na contemporânea ( pós-estruturalismo ).].

Se ficou complicado (principalmente porque a segunda definição tem um pé na filosofia), vou resumir: basicamente, é enxergar o outro como o outro é, ao invés de tentar enquadrá-lo nas suas próprias ideias e pré-concepções. A gente acha que faz isso, mas não faz. Além disso, envolve uma certa humildade em aceitar que o outro tem valores diferentes dos nossos e que não somos os bastiões da moralidade ou dos bons costumes… Até porque a própria definição do que é um "bom costume" depende da cultura que estamos falando, não é mesmo?

Se você parar pra pensar, é essa vontade de impor um jeito de ser sobre o outro que gera homofobia (pois somente ser hétero que é o certo), racismo (ser branco é que é o certo), transfobia (se identificar com o gênero de nascimento é o certo) e machismo (porque ser homem é que é o certo) e todas as outras formas de preconceito existentes. Não preciso dizer o quão limitada e errada são essas visões de mundo, mas vou dizer mesmo assim para não deixar brechas para dúvidas: essa visão de mundo é extremamente limitada e errada, pois não existe o que é o "ser melhor" só porque alguns poucos acham que sim. E digo mais: eu desafio todas as pessoas que propagam o discurso "saia da zona de conforto" a conviver com quem de fato é diferente de si para ver se elas praticam o que pregam.

Recomendo muito os textos do Alex Castro para quem quiser entender melhor sobre isso. Ele até cunhou um termo que eu acho sensacional para apontar esse comportamento: Outrofobia.

Para finalizar essa seção, gostaria de citar essa definição de alteridade daqui:

Enquanto a empatia refere-se à capacidade de colocar-se no lugar do outro, sentir a dor do outro de maneira imaginária ou por analogia, a alteridade é a capacidade de reconhecer que o outro é daquele jeito porque ele é, essencialmente, diferente de você. Além do reconhecimento da diferença, a alteridade propõe um respeito ético ao outro como ser singular. É na alteridade que surge a tolerância.

Ao lidar com pessoas de culturas diferentes, ficamos horrorizados com algumas decisões tomadas por elas, sendo que não levamos em consideração que elas vieram de um mundo completamente diferente do nosso, seja em valores, hierarquias sociais, escolhas disponíveis ou educação. Isso acontece em empresas, disputas políticas ou conflitos familiares.

Vamos a um exemplo do meio corporativo: o gestor não atua como analista e vice-versa. Portanto, não é possível para um gestor compreender 100% como é executar uma tarefa para quem ele delega. Da mesma forma que não é possível para um subordinado entender 100% de como é estar na pele do gestor ao lidar com várias situações. Em ambos os casos, somente é possível supor. Portanto, ao invés de proferir um "eu te entendo", profira mais vezes a seguinte pergunta: "como é para você fazer tal coisa?" e dai você ouve e age de uma forma mais adequada, sem hipocrisias ou ilusões de entendimento real advindas das limitações da empatia.

Para finalizar, meu argumento é: dado que você nunca irá entender 100% o outro pois você possui um conjunto de percepções, crenças e valores completamente diferentes das dele, lide com o outro como ele é e não como você gostaria que ele fosse.

Isso envolve de fato aceitar as diferenças das outras pessoas e não somente propagar um discurso bonito. Ou seja, em última instância, a empatia é limitada em sua função principal de entendimento do outro, enquanto a alteridade nos ajuda a lidar com outras pessoas como elas são.

O que, por ser difícil, poucos acabam fazendo. Afinal, requer muita coragem e amor por outras pessoas para deixar de proferir discursos bonitos na internet e no Linkedinho e aceitar as pessoas como elas realmente são na vida real, não é mesmo?

Até!

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Escritor-Desenvolvedor

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