A hora mais escura: Conselhos para Juniors e Sandys

Adriano Croco
8 min readMar 23, 2023

Olá!

No texto de hoje eu gostaria de abordar alguns questionamentos que pessoas desenvolvedoras que estão começando na área de tecnologia me fazem nas mentorias com uma certa frequência.

Contexto

Após a crise financeira de 2008, houve uma redução significativa na taxa de juros básica da economia dos Estados Unidos. O efeito disso na economia se dá basicamente pela influência que taxa básica tem no custo do dinheiro na hora de obter um empréstimo e o quanto você será remunerado se investir em um algum título do tesouro daquele país. A grosso modo, quanto mais baixas as taxas de juros, mais barato fica o crédito e menos retorno você tem ao investir em opções de investimentos atreladas a essa taxa.

Um resumo dessas taxas pode ser encontrada na imagem abaixo:

Taxas de juros no mercado americano desde a década de 1970

E o que isso tem a ver com o mercado de tecnologia? Bom, no risco. Repare no que aconteceu a partir de 2010.

Se você tem muito dinheiro para investir e aplicar em opções seguras rendem muito pouco (dado que a taxa básica de juros está baixa), ao invés de aplicar nessa opção e perder dinheiro devido ao aumento da inflação (em linhas gerais, o intuito de todo e qualquer investimento é superar a inflanção em termos de retorno), você é obrigado a correr mais risco.

Uma das formas de se fazer isso é investir em Venture Capital (também conhecido como capital de risco). Que nada mais são do que fundos de investimentos que possuem um foco em investir em iniciativas arriscadas (ou seja, novas empresas com modelos de negócios ainda não totalmente estabelecidos e que possuem um grande potencial de crescimento e retorno futuros). Em outras palavras, startups.

Portanto, a partir de 2010 (que seria uma espécie de era de ouro dos unicórnios, olhando em perspectiva), houve um aumento de investimento considerável em várias empresas com essas características, dado esse contexto macro-econômico (portanto, quem queria ganhar mais dinheiro investiu nesse mercado devido a falta de ativos melhores).

AirBNB, Uber, Netflix, Nubank, Ifood, Loft, QuintoAndar. Todas essas startups (e várias outras) cresceram nesse período. A ênfase está no cresceram e não no deram lucro.

Devido a esse excesso de dinheiro circulando, o foco das startups durante esse período passou a ser crescimento acelerado ao invés de crecimento sustentável. Afinal, era isso que garantia a próxima rodada de investimentos.

Recentemente, o foco dos investidores mudou para obter retorno real dessas empresas ao invés de só ver crescimento desenfreado. Seja pela taxa de juros subindo, uma ameaça de recessão, a nova crise dos bancos, a guerra da Ucrânia e demais problemas acontecendo no mundo, a verdade é que agora as startups estão jogando no modo difícil. Ou seja, a bolha estourou.

E o que acontece quando o dinheiro para a próxima rodada de investimentos pode não vir? Layoffs.

Justamente por uma tentativa de correção de rota na gestão dessas startups em direção a uma empresa que dê retorno, geralmente ocorrem demissões e um foco em obtenção de retornos de curto prazo. Em outros termos, 2023 é o ano da eficiência.

Impacto para Sandys e Juniors

Em cenários empresariais de foco em retorno de curto prazo, as empresas cancelam boa parte das iniciativas consideradas arriscadas demais para o momento (alguns tipos de produtos digitais que são apostas, programas de formação e até mesmo programas de diversidade e inclusão), gerando uma diminuição de vagas significativa.

Se você não pode correr risco, você prefere contratar alguém para ensinar ou alguém que sabe fazer o trabalho? Geralmente, as empresas continuam contratando Seniors e Plenos, justamente devido a ausência dessa curva de aprendizado nas entregas.

O impacto para esse outro nível de senioridade em um mercado como o atual é a redução de salários. Afinal, agora, há mais oferta do que demanda, pois muita gente boa de muita empresa foi afetada pelas demissões. Uma vaga de Senior que no ano passado tinha pouca concorrência, agora tem bastante gente concorrendo pela mesma vaga. Mas divago, o foco aqui é o impacto nas pessoas iniciantes.

Plano de ação

A primeira vaga em tecnologia é a mais difĩcil. Justamente pelo excesso de assuntos para se aprofundar, síndrome do impostor e senso de desesperança. Mas respira que tem um caminho. Não é fácil, mas é possível.

Justamente pelo auge da bolha ter atraído um excesso de aventureiros ao mercado de tecnologia, agora é o momento de quem realmente gosta da área e é um bom profissional se diferenciar.

Se você está na dúvida do que fazer, siga essas dicas:

Escolha uma área: não duas, não três. Uma. Seja front, back, mobile, infra, devops, QA, dados, não importa. Se você não sabe o que cada uma dessas áreas faz direito, ler isso aqui pode te ajudar. Eu nunca vi alguém ser preso(a) por adicionar alguém que trabalha na área do seu interesse no Linkedin e perguntar para essa pessoa como é o dia-a-dia de um profissional que trabalha com Go ou Ciência de Dados, por exemplo. Se você não sabe o que esperar, investigue.

Escolha uma tecnologia com demanda e que faça sentido com a escolha anterior: Agora, saiba o que o mercado está pedindo para uma vaga de uma determinada área e comece a estudar sobre aquilo. Não faz sentido você estudar Rust se você escolheu front-end (aprender Angular ou React faria mais sentido). Como linha geral, mire nos requisitos de uma vaga acima do seu cargo atual em uma empresa que você tenha afinidade (sempre um nível acima e não dois, para evitar ansiedade). Assim, você se mantém estudando sempre pensando no próximo nível. Quando você menos esperar, você chegou lá.

Diferencie-se: Eu canso de ver Junior com formação de bootcamp com portfólio de Pokémon. Nenhum problema com essas práticas. O problema é que o mercado remunera Raridade Útil. Logo, você não prova que é raro(a) e nem útil fazendo esse tipo de coisa. Se você escolheu Angular, seja um especialista nisso, vá fuçar no código fonte. Domine os fundamentos da Web e saiba como fazer alta performance no front, esse tipo aqui de roadmap pode te ajudar a direcionar os estudos. Se você escolheu Java, vá a fundo para entender a JVM, como o Spring Boot funciona e faça uma prova de conceito usando Quarkus. Não importa a tecnologia, sempre haverá uma forma de se aprofundar nela. Quer uma motivação? Eu aposto que um Junior e/ou Sandy teria mais chances de ser contratado(a) se chegasse em uma entrevista técnica com essa bagagem aprofundada sobre a tecnologia principal de escolha. Pense nisso.

Fundamentos: Só não se esqueça que antes de ser uma pessoa desenvolvedora que sabe usar um framework, você precisa ser um bom cientista da computação para continuar crescendo na carreira. Não dá para chegar a Senior sem isso.

Gestão de Tempo: Uma boa heurística de estudo que eu recomendo é: Use 80% do tempo de estudo para o seu estudo “principal” (ou seja, o que vai te dar uma vaga) e 20% para estudar coisas que você tem curiosidade. É um bom metódo para se manter evoluindo sem sentir que você não tem tempo de experimentar. Isso ajuda a reduzir aquele senso de peso que estudar algumas vezes gera. Tem que ser algo prazeroso para ser sustentável a longo prazo (afinal, você vai ter que estudar muito ao longo da sua carreira em tecnologia).

Open-Source: Se você curte, contribuir com projetos de código aberto ou até mesmo fazer uma biblioteca que resolve algum problema e publicar pode ser uma ótima forma de estudar. Se você acha que precisa ser muito expecional para fazer isso, eu estou te afirmando que não precisa. Um dos cases mais simples e impactantes que eu já vi foi uma lib de… copiar e colar. Acho que pela quantidade de downloads diários (quase 2MM no momento que escrevo esse artigo), é uma prova que é útil para alguém, certo?

Cursos formais: Eu evitaria cursos formais nesse momento (estou falando especificamente de pós-graduação), por dois motivos: Geralmente são melhor aproveitados por pessoas com uma certa experiência real na área e se você tá procurando uma primeira vaga provalvemente não terá dinheiro para pagar uma com tranquilidade. Dado que o retorno é incerto para o custo, não faz mal adiar um pouco. A unica exceção são cursos como Mestrados ou Doutorados se você quer trabalhar com Ciência de Dados. Esses são bem valorizados nessa área. Para as outras, não vi fazer muita diferença que justifique uma corrida em direção a isso. Caso você já esteja para começar uma graduação relacionada na área de computação ou terminando uma, continue. O diploma pode fazer diferença mais para frente.

Projetos Reais: Um projeto que eu acho interessante que eu gostaria de divulgar (não conheço ninguém que fez, mas estou divulgando por uma questão de apoio a ideia e assumindo que seja um projeto de boa fé), é o SouJunior. Nele, você se inscreve e tem a chance de participar de projetos reais e construir algo que o mercado enxerga como tangível. Se você fez ou conhece alguém que fez, me manda uma mensagem no meu LinkedIn, eu gostaria de conversar sobre o impacto dessa experiência.

LinkedIn: Tenha o hábito de adicionar Tech Recruiters no LinkedIn. Assim você saberá quando surgir vagas novas, por exemplo. Quanto mais recrutador você conhecer, mais exposição a vagas você terá. Isso aumenta suas chances de ser visto(a) e contratado(a).

Eventos: Além disso, vá e participe dos eventos que você tiver interesse, é uma ótima forma de conhecer pessoas da sua área. Mas não se sinta obrigado a ir em um grande volume deles. Outra dica: Escolha eventos que tenham o nível técnico adequado. Não adianta ir em um evento de ciência de foguetes se você tá aprendendo if/else. Consumir esse tipo de conteúdo sem o nível prévio necessário pode e vai te frustar.

Produção de Conteúdo: Se você estiver a fim, produza conteúdo e divulgue. Seja via texto, vídeo ou aúdio, não importa. O grande benefício dessa prática é que para produzir algo bacana, você se obriga a estudar os assuntos. Para mim, escrever me ajuda a memorizar tópicos mais facilmente do que simplesmente lendo sobre eles. Se e somente se algo assim ressoa com você, vá em frente. A minha percepção é que ocorre uma proporção de 20:1 em se tratando de retorno. Exemplo: A cada 20 artigos e/ou mentorias que eu produzo, um deles me traz algum retorno positivo. No restante do tempo, é só exercício de generosidade, no qual me parece que eu mais ajudo do que sou ajudado. Ao menos para mim, está tudo bem. Se você quer retorno fácil e tudo mais, talvez produzir conteúdo não seja para você e tá tudo bem.

Espero que esse texto te ajude a se decidir se vai querer mesmo investir tempo em ser um profissional de tecnologia ou fazer outra coisa da vida. Em ambos os casos, tá tudo bem, não existe um caminho correto na vida. Para mim foi o desenvolvimento de software. Inclusive, tá tudo bem também se você não fizer nada do que eu disse e querer fazer do seu próprio jeito.

Boa sorte!

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